POEMA SEM FIM

Contigo aprendi que os dois lados de uma questão
na verdade são cubos que se encaixam e se desdobram


Não quero te falar das coisas que passaram
e que não são mais; quero te contar tudo o que eu sinto
e a dor de não poder completar jamais
o que foi salvo como coisa incompleta,
aquilo que não foi bem colocado,
o que ficou contido em silêncio pendente _
e que vai sempre nos fazer lembrar
os bichos humanos que somos,
lutando por algo indefinido que não sabemos bem o que é,
querendo permanecer vivos envolvidos poder partilhar
os descaminhos do mundo e planeta,
e com isso ferindo o semelhante
por ter apenas uma pálida noção da semelhança,
daquilo que é Igual em mim e em você
e em qualquer um.
Quero te falar deste poema sem fim.

Contigo aprendi que a margem de lá é como a margem daqui contigo
aprendi que o rio é profundo
tão grande é o mundo
impossível sentir vontade de andar numa margem apenas impossível ficar sem querer me afogar nas águas o amor contigo aprendi a arte de deixar a corredeira empurrar seja lá pra onde for...

Mas o mais interessante nisso é que aprendi a lição
(não conter o coração) sem que houvesse professor. Foste e não eras, querida. Estiveste e não estavas. Exististe?

Em todo caso, eu aprendi contigo que a doçura do olhar
está mais na vontade de ver do que no próprio enxergar
mais na vontade de ser mais que mais um Explicando melhor é e não é
ser um rosto qualquer é não esconder no armário este lado menino não trancar na gaveta o outro lado do rio que é,
como já disse, igual a este daqui mas é uma questão de opção simplesmente outra opção.
Contigo aprendi que um não é um não, o advérbio de negação _ não é a possibilidade do sim. Mas um não é também um sim, apenas que em sentido contrário. E é preciso, contigo aprendi, dizer não porque é preciso também dizer sim. Não às coisas que nos prejudicam Não aos desvios do nosso caminho Não às viagens que tenham destino fora de nós mesmos Não aos dramas existenciais concêntricos (como uma sonda cavando petróleo
sem jamais achar) Não a toda forma de conhecimento _ como diria Brecht _ que não procura tornar o preço do pão mais barato.
É preciso dizer não, hoje mais do que ontem à falta de amor, porque hoje há menos amor que ontem
Não. É preciso também dizer sim, porque é preciso, contigo aprendi, dizer sim à vida, a vivida, essinha que temos e que um dia por um câncer nos ossos ou um acidente qualquer
não existirá mais

_ Eu digo sim!
Contigo aprendi
que é preciso viver além do nosso tempo
além e a frente como se o futuro
fosse feito (como de fato é) agora.
É preciso também, importante notar,
estar atento ao que se passa neste momento
_ a temperatura, as pessoas, a vida, tudo em volta_

Mas porque "É preciso", assim tão impessoalmente?
Porque acreditamos eu e outros tantos
que existe um Algo maior com o qual tentamos
mesmo em vão tentamos
nos equiparar
e mantemos o bom humor a boa vontade
um olhar luminoso e a vontade de dizer
eu amo você.

Contigo aprendi
que a beleza do olhar
está no próprio enxergar

Contigo aprendi que o drama da vida
se desenrola na terra
como o arame
farpado que vai de estaca em estaca
e cerca todo o pasto
_ continua enrolado , mas num rolo maior

Ou seja, quando aperta
ou afrouxa é curta ou é larga pequena
ou maior
a vida costuma arranhar
Contigo aprendi
que o poema é sem fim e que dentro de mim
vive mil poemas sem nexo, aprendi a fugir
dessa rima tão fácil
( a querê-la real na superfície da pele)

A vontade de ver pode até ser mais bela ,
mas contigo aprendi que é importante enxergar
porque podendo enxergar
se pode enxergar.

Contigo aprendi _ pra falar de coisas mais visíveis _
a lavar a louça, esticar o lençol ter cuidado
o arrumar o tapete
do banheiro, não sujar o da sala...
(a importância das coisas corriqueiras
miudezas do dia a dia)





E assim foi, até que um dia quando já tinha ido embora o claro outono de Brasília e as noites frias de junho já abraçavam este perdido trecho do planeta sobre um planalto imenso _
eu aprendia desaprendia reaprendia,
até que no tal dia me segurei pela mão e fomos eu comigo pelo mundo afora atrás de nosso destino fomos apenas com a certeza nas mãos um futuro um sonho sabendo que ele não estava pronto mas muito eu teria por fazer muito teria por viver por optar sofrer por ganhar e por perder,
muito teria muito mesmo
Fomos pelo mundo afora e um dia se cruza o nosso com outros destinos também talvez tão jogados e risc e zasc e chip orguinscrachquirilaxssss...
Talvez não, nunca se cruzem, mas de qualquer forma contigo aprendi que vale a pena arriscar
e mais do que isso aprendi que é vital arriscar : vida só se tem uma só vida só uma só e no que nela não se vive noutra
não se verá.

Contigo, isto, comecei a aprender desde aqueles primeiros encontros aquela primeira noite passando o quebra-molas da 111 Sul quando me falastes algumas certas coisas que muito me fizeram bem, falavas dos poetas são todos iguais, não se podem prender a ninguém o Vinícius é que tinha razão... contigo aprendi.
Muito me fizeram bem e me fizeram aprender que nenhuma diferença havia entre escrever versos na praia de Copacabana e se chamar meu poeta, meu poeta camarada e estar entre blocos e superquadras, ter um gosto de cerrado entalado na goela e ser eu, o Nevinho filho de Seu Laerte e D. Joaquina (que aliás, já nem é mais aquele filho mas o que resultou daquele filho tão amado tão acarinhado com as coisas todas que tenho aprendido contigo).



Contigo aprendi as pequenas
e as grandes coisas, a minúcia o detalhe
as coisas mais lindas como o valor de um pano
de prato bordado pela minha mãe cabeça branquinha
que passa horas sentada tricotando tri
cotando (ou fazendo palavras cruzadas "dominó") alheia
a tudo e ligada em todos. E o valor do prato a panela enxutos,
resultado de aquele trabalho contigo aprendi
o valor do rodapé a fresta do azulejo
na cozinha iluminada, os móveis da sala
_ não por que fossem objetos com volume e forma
com peso e tamanho
mas por que eram os móveis da sala e compunham
o cenário do que foi chamado nossa casa.

E contigo aprendi também que por trás do horizonte
_ geralmente azul _
existe outro mundo (imenso) APRENDI a querer
mais em cada viagem
descobri o mundo grande
e que a vida não pode por si se perder
ficar encolhida sendo vivida pela metade
apenas quanto ao detalhe a minúcia o detalhe
o detalhe apenas

Contigo aprendi
o valor de um domingo de sol a preguiça
rolando na cama a sinfonia
do vento esvoaçando, o frescor da manhã.
E o sexo mais baixo com línguas
e unhas gemidos e pernas, contigo aprendi.
Contigo aprendi
a diferença que existe entre o sexo oposto
e o oposto do oposto
que acabam sendo iguais e cada um
se alimenta na fome do outro e cada qual
quer ser mais desejado
com malícia e pureza.
Contigo aprendi que apenas eu
Névio Carlos de Alarcão, filho de
Seu Laerte e D. Joaquina, que nasceu
temporão no dia sete
de novembro
de hum mil, novecentos e cinqüenta e oito anos
após o nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo
só eu, o Nevinho
dormiu tantas e várias noites ao som do sermão
do Pastor Benjamim, ou do Reverendo Eudaldo,
deitado no banco da Igreja Nacional, na 906 Sul
ao lado da Igreja Memorial Batista, onde anos depois
meu irmão se casaria com uma noiva de roxo.

Só eu, o Nevinho, quis comer a Nelbe
na caixa d'água do prédio em construção
mesmo que ela estivesse morta
Só eu quase morri envenenado de tanto comer
mamona seca (coquinho da favela) junto com o Wilsom
irmão do Calo do Icada do Celso do Mimi
e do Serginho filhos
da D. Jurema que dançava sob a ralha do filho mais velho
e do Seu Jorge que um dia morreu enquanto dormia.
Contigo aprendi
que eu vivia inventando metáforas
inventando
na fantasia do dia nas três dimensões
buscando algo além que fosse capaz de tirar-nos os dois
da loucura que é e que tem sido viver (uma espécie de deus
nos poupando a dor de todo processo de libertação)
ao mesmo tempo eu aprendi contigo que a fantasia é vital
a fantasia é vital
a fantasia é vital
mas a vida (ah, a vida) não acontece _ contigo aprendi _
numa folha de papel a vida não se resolve
no taquetaquear da máquina de escrever,
esta mesmo sendo elétrica movida a velocidade de bytes
não acompanha o ritmo da vida.
Contigo aprendi como também disse Mário Quintana
que a vida é breve e o amor
mais breve ainda.
Aprendi que é preciso cuidar
do amor há que ter
perícia há que ter astúcia
e sempre um pouco de malícia;


às vezes conter a emoção e ter coragem de esperar
ou
na hora certa
esperar sua melhor definição _
eu aprendi contigo que as coisas sentimento
quando enfim são ditas
além de ganhar uma velocidade têm caminho próprio
e podem seguir uma trilha desconhecida (embora não saibamos
esta
é sempre a melhor).

Por, para e com tudo isso
eu aprendi contigo
que a vida sendo muito valiosa
não merece o menor cuidado:
há que ser jogada no lixo
porque do lixo nasce a flor
há que ser pisada esmigalhada
porque da fagulha explode o incêndio
há que ser moída
porque da garapa surge o mel
há que ser arremessada a distância
para que passemos o tempo
a sua procura.

Então, eu aprendi contigo que eu sou assim
meio sangue de barata meio rastilho de pólvora
aprendi que não sou nem quero ser uma espécie de pavão
que usa o silêncio do corpo ou o barulho do corpo insinua
encanta
ginga e firuleia _ até chegar ao gol no divino/diabólico jogo jogo da sedução.
E contigo aprendi, embora tarde, que é preciso cuidado
Contigo aprendi infelizmente é preciso infelizmente cuidado.

Infelizmente. Mas sou assim: a minha dança
é a minha dança
é a minha dança (de qualquer forma, outra espécie de pavão).






Contigo aprendi
a me procurar me procurar me procurar
me procurar nas paisagens do meu país
nas paisagens cenas
de rua camelôs pastéis engordurados churrasquinho de gato
fome sob os viadutos nas passagens subterrâneas
da Asa Norte na ponte do Bragueto nas margens do Lago Paranoá
no jogo de dominó bilhar canastrão sinuca porrinha
me procurar na vida, nesta vivida
atrás do dia, em busca de alguma coisa
e contigo aprendi
a ter um encontro marcado comigo
chegar em casa me procurar me deparar
com a minha solidão escancarada nos teus olhos,
talvez pendurada no varal de roupas lavadas talvez
misturada com sal e feijão
talvez escorrendo pelas paredes
como uma gosma que não se sabe bem o que é.
Talvez eu tenha desaprendido o que nunca soubera, talvez
Contigo aprendi certos segredos que sem ti jamais se desvelariam,
aprendi que o destino tem asas mas depende de mim
fazê-lo voar depende de mim fazê-lo parar depende de nós.
Aprendi que tudo é talvez
e nem tudo tem o momento certo de acabar
o anel que tu me deste era vidro e se quebrou
o amor que tu me tinhas atirei o pau no gato
mas o gato não morreu; então, finalmente,
pela estrada afora eu fui bem sozinho
ia comigo alguém maior lembrando a imagem de um deus
Contigo aprendi que naquela noite há muito tempo atrás
nas areias de Guarapari na praia do outro lado na Estrada de
Marataizes
entre rabos de galo e vodka
naquela noite eu já procurava algo e não sabia
eu estava já atrás de você eu estava já
atrás de você que nalgum ponto
(em mim? em você? onde?) haveria de aparecer
para que eu fosse assim acoçado
encantoado, sem ter pra onde fugir e enfrentasse o medo
o medo, o medo o medo
como o de um rato que encantoado na lixeira ataca o opressor
como a gente fazia na 304 Sul debaixo dos blocos
por entre pilastras por entre jardins pulando bancos
correndo atrás pulando chutando lata correndo atrás
de cachorros de gatos correndo atrás de ratos correndo atrás
correndo correndo
A correria nunca mais parou

Eu contigo aprendi as coisas mais díspares
as coisas vulgares
e as coisas ímpares, de que não se ouve falar,
as que nenhuma poesia consegue captar
e as coisas que andam na rua como gente comum.
Aprendi que a morte é um fato trivial desses
que acontecem ao sair de casa ir comprar leite
na esquina durante a copa do mundo.
_ Falo da morte do meu avô, ontem, 16.06.86,
que aos 91 anos morreu atropelado por um louco qualquer;
não a morte que se lê na poesia, feita de signos e lembranças.

Contigo aprendi que a morte é sempre amanhã
e quando chega inesperada
por mais que tenhamos calma _ e saibamos
que um dia ela virá
sobrevoa-nos uma revolta
e como defesa não acreditamos,
desafiamos os fatos.
Contigo aprendi a importância de estar perto
mesmo estando longe, e estar perto geograficamente
pois se o coração aperta
a mão quer apertar a mão amiga
Nesse caso não há lembrança que supra
o tato suado dos seus dedos macios

No mais, aprendi contigo, a comer o pão de cada dia
comer o pão de cada dia
cada dia comer o pão
cada dia
sem esquecer nem sentir
o gosto de suor de cada pão.

Enquanto isso lá vai a vida rodando
do lixo do moinho do fogo e da água
vê-se a vida nascendo
Enquanto isso lá vai a vida rodando
uma criança sorrindo na roda-gigante
a mãe assustada espera lá embaixo
o avô sentado de longe recorda uma tarde
longínqua apartando os bois no curral
e a vida, despreocupada, finge não ver
a alegria a atenção o descaso do mundo _
simplesmente passa, lá vai a vida rodando
Contigo aprendi
a ver Brasília Rio de Janeiro Amsterdã
Paris Roma Munique
Londres Madri
Nice
como se uma viagem fizéramos juntos
recompondo paisagens ruas edifícios
que na minha memória se estilhaçaram
numa imagem mil diante do espelho quebrado de mim mesmo.
Contigo aprendi que nossas linhas se tocaram
num ponto qualquer reta e curva da vida
para que eu aprendesse contigo a desembaraçar os fios
desfazer os nós que nós mesmos nos demos _
e não devíamos. Mas por que não
se eu estou aqui
e tu estás aí
e a santa moral cristã ainda rege pacífica
sobre os lares da Tradicional Família Brasileira?


Sim, devíamos ter dado o nó
mas devíamos antes saber com que tipo de corda lidávamos
devíamos presumir que sob o voal que envolve a vida
existe o cabo-de-aço
inquebrantável
da Moral. Ah, a moral, a moral...
Contigo aprendi
que muitas coisas deixaste de comigo aprender
por que quiseste aprender e eu não tinha o que ensinar :
com as minhas incertezas te iluminei
e não quiseste descobrir a luz
que por trás das sombras existe _ e resiste.
Contigo aprendi que um anjo torto
desses que vivem nas sombras
também me disse para ser gauche na vida
além disso me condenou
a estar sempre consigo.
Sob a asa direita ele traz a incerteza
sob a esquerda traz o desejo
e sobre a cabeça _ redonda? branca? preta? _
lhe aperta uma coroa de dúvidas
cada dia mais apertada.

É essa coroa, no entanto, contigo aprendi,
que não o deixa ser apenas torto
mas sim, note bem! ,um anjo
torto.
Mas não foi por acaso que os nossos caminhos
se cruzaram foi para que o céu as tardes a lua
não mais existissem apenas em poesia
e para que ela não se ativesse aos céus às tardes à lua
mas que visse também o sofrimento escuso
do homem que bate à porta e pede uma ajuda qualquer
para que visse também a desgraça pública
da mulher que sonha mas vê o seu sonho de menina
atirado ao chão
uma mulher real nascida de outra mulher real
pelo esperma de um homem "X" na cidade "Y" no bairro "Z",
que tem um nome pelo qual desde pequena atende
você era a mais bonita das cabrochas desta ala
você era a favorita onde eu era mestre-sala
você era onde eu era
Foi para que eu estivesse hoje aqui acreditando
no determinismo do nosso encontro, foi talvez
para que eu me emocionasse pensando e lembrando
e pensando que tudo foi
para que tudo tivesse sido imaginado
que tudo é para
e tudo é por, assim como houvesse uma vibração no vento
ou um elemento químico solto no ar
que faz com que tudo tenha motivo pra ser:
o que não impede cada um de ser o que é
não impede que cada um saiba a dor
e a delícia de ser o que é
Contigo aprendi
que para escrever poesia
é preciso um ritmo na cabeça.
Não importa qual _ é preciso um ritmo qualquer
que movimente as palavras
e as faça saltitar a nossa frente
para que
posteriormente
lancemos mão de uma ou de outra
É preciso também ter um sonho para realizar,
um desejo forte,
uma carência mesmo.
Ah, e é preciso que não se perca nunca
esse sonho do alcance das mãos.
_ saber o que é, não precisa tanto
basta sentir basta pressentir
Contigo aprendi
que para escrever poesia
é preciso ainda ter um ideal
mesmo que seja difuso
abrangente
fluido como "ser feliz" ou até "estar bem"
Mas para escrever poesia
é preciso sobretudo andar atento
e não esquecer o compromisso
com a vida, com os homens, contigo _
compromisso de sempre pensar em poesia
como uma forma de dizer sim
ou dizer não, mas dizer alguma coisa
não ficar mudo,
e na hora certa emergir da contemplação
e fazer
agir
pragmaticamente
porque a poesia, contigo aprendi,
não se alimenta só de folhas e luz
cores e brilhos
não _ para fazer poesia
aprendi que é preciso olhar o chão
pisar a terra e saber que respiramos oxigênio
que por um processo químico qualquer
mantém o coração batendo o sangue fluindo e os olhos
abertos para que afinal
possamos ver as luzes e as cores.
Contigo aprendi
que apenas falar de flores beijos
lembranças não ajuda o homem na sua busca
feroz por um mundo melhor.

Mas não custa lembrar o olhar faiscante
que me lançavas como se perguntasses
se era verdade ou não, como não acreditasses
em teu próprio coração.

Não custa em termos: custa o trabalho de me deixar
horas a fio
esperando a poesia passar para que eu me agarre em
sua cauda de cometa
e reviva aqueles momentos
e abra aquela noite, a porta
daquele teu olhar;
custa _ contigo aprendi _ a permissão
que me dou à fantasia que me arrasta entre brilhos velozes
para um mundo outro longe daqui,
e mais longe de lá

Ou melhor, custa a porrada que levo ao cair
desse fio estendido por mim mesmo de um minuto
a outro minuto e em que fico
equilibrando-me
como um palhaço feliz: depois da maquiagem desfeita
aparece o hematoma e a gente percebe
que não está num circo e sim na vida
(na vida! com seus espaços e fusos);
e percebe que as flores que a gente escreveu
não tiveram a menor importância.


Mesmo assim lembro
Mesmo assim beijo
Mesmo assim, contigo aprendi, gosto de escrever
Contigo aprendi
que o amor não se faz no parapeito da janela;
na janela, ou da janela
o amor _ depois _ parece que não aconteceu:
a lembrança do teu vulto lançando luz
no que, naquele instante, era breu
não ilumina o meu presente agora, aqui.
Contigo aprendi que esse tipo de amor
um tanto infantil
se perde
infantil
mente com o tempo

com o trabalho das horas e dos fungos
Mas o pior é isso: parece que não aconteceu
quando na verdade esse amor é igual
ao feito na cama sobre lençóis encardidos

O amor é igual, por outro lado eu aprendi contigo,
apenas não tem pernas que se confundem,
os pentelhos não se enroscam,
o ar chiando por entre lábios e dentes e língua
não entra fininho e fundo no ouvido lambido.
Mas é igual.

Contigo aprendi que o amor é igual.
Contigo APRENDI
QUE no amor o sujeito é sempre importante
que no amor fica sempre algo não dito,
coisas que por mais que digamos e repitamos
as palavras parecem vazias
e apenas o silêncio é capaz de fazer entender,
coisas que para sentí-las
aprendi que devem permanecer na penumbra
(um mundo onde os significantes e significados
esperam um signo que lhes aproprie)
coisas que se devem calar
diante do abismo em que caímos no momento do gozo
e uma sonora gargalhada

ocupa todo o cômodo
resumindo nossa sabedoria
declarando nossa ignorância
Contigo aprendi
que o amor simplesmente acaba
acaba acabando-se por acabar-se

O amor acaba, além de por si mesmo,
por não ser bem amado _
se não sabemos cuidar dele
se esquecemos de um certo tipo de fingimento
Se o prendemos e tentamos domá-lo
o amor para se salvar acaba
Se o definimos e queremos colocá-lo sob regras
o amor para se salvar acaba

Se lhe impomos certos sacrifícios
obrigações, deveres, falsos poderes,
o amor
para não acabar
acaba.

E deixa em seu lugar nunca o vazio
um outro sentimento qualquer
a ilusão de estar acompanhado por sabe-se lá o quê
capaz de nos fazer pensar que é possível prosseguir
e até nos alimenta com o desejo de caminhar em sua estrada
crentes de que ela é o "verdadeiro amor".

Mas contigo
estranhamente
aprendi também que esta ilusão é flor que não vira fruto
o que significa dizer que pode-se viver _ bem _
apenas em sua companhia
repetindo pra si mesmo que uma flor é uma flor é uma flor
sem jamais entender que uma flor
é uma flor
é uma flor

Ou seja, a ilusão não tem fim
já o fruto que dela não vem teria fim
mas seria o começo de outra semente
e lá vem fruto vem semente vem flor
lá vem fruto vem chuva toca o vento
deixa estar roda a vida roda a vida roda roda

Seu fim (do amor) é para que a vida ande seu ciclo natural
seu fim é Alimento

Significa dizer que contigo estranhamente aprendi
que não era esse o meu caminho
apesar de tê-lo desejado, confesso
apreendi a incapacidade de ele nos dar a felicidade:
a graça de ver refletida em nós mesmos
a história de nossas vidas.

por outro lado contigo aprendi
_ O amor acaba! _
que esse sentimento qualquer de alguma forma faz parte
(será o próprio acabamento?) da salvação do amor
que para salvar-se acaba; o vazio que BEM DEPOIS sabiamente nos ocupa
torna mais simples
mais cru
mais duro o acabamento do amor que acaba.
Contigo aprendi
que apesar das tantas palavras
X oxítonas
X paroxítonas
X proparoxítonas
além das mono silábicas
apesar delas e de você, que primeiro me falou não acreditar _
aprendi que eu não acredito nas palavras
porém na vida
é... na vida!
E se os signos aprisionaram os significantes
não há um que caiba apenas numa palavra
palavra de rei
palavras cruzadas
meias palavras
palavra empenhada
palavra pedida
palavra pesada
palavra assumida
última palavra

CONTIGO APRENDI ISSO
QUE ninguém é aquilo, ninguém é...
NUNCA UMA COISA EXCLUI OUTRA.

Mas aceitando a dualidade podemos descosturar a fantasia
e descobrir sob o voal o sangue vermelho a carne da vida
o sumo real.

Mais estranho eu diria é que não se veste uma fantasia
sem que se vista outra também

a não ser que sejamos dia-bólicos;
e descobrimos sob nossas cascas
sempre uma polpa não tão boa
quanto se imagina pela vitrine nem tão podre
como quando nos sentimos jogados ao restolho

Contigo aprendi
que perto de um poema
o ser humano é mais

fica sem graça o poema
o poema fica sem graça

Contigo aprendi
que o verso final
será o da liberdade
cuja autoria disputaremos como nacos de carne
jogados na arena
ou como crianças no Parque
correndo atrás das bolhinhas de sabão.














Contigo aprendi
_ e fiquei mais tranquilo por isso _
que o meu verso final será escrito a dois.







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